Todo estoque tem itens que pesam e itens que só ocupam espaço. No dia a dia, porém, eles recebem a mesma atenção: o comprador gasta a mesma energia com a embalagem e com o componente importado, e o inventário conta parafuso com o mesmo cuidado que a peça cara.
A curva ABC é a forma mais simples de separar o que merece atenção do que pode seguir no automático. Este guia mostra como fazer a conta e, principalmente, o que fazer com o resultado, porque a curva que fica na gaveta não muda nada.
O que é a curva ABC de estoque?
A curva ABC aplica ao estoque o princípio de Pareto: em muitos conjuntos, uma parte pequena dos itens responde pela maior parte do resultado. No estoque, poucos itens costumam concentrar boa parte do dinheiro que passa pelo almoxarifado.
A classificação separa os itens em três grupos:
- Classe A: poucos itens que respondem pela maior parte do valor consumido.
- Classe B: a faixa intermediária, em quantidade de itens e em valor.
- Classe C: a maioria dos itens, que juntos valem pouco: fixadores, embalagens, material de consumo, peças de baixo giro.
O nome vem do gráfico: com os itens ordenados do maior para o menor valor, a linha do acumulado sobe rápido no começo e quase se achata no fim.
Como calcular a curva ABC, passo a passo?
Escolha o período. Os últimos doze meses são o ponto de partida mais usado: pegam a sazonalidade inteira.
Levante o consumo de cada item. Quanto saiu no período: as vendas, na distribuidora; as requisições para a produção, na indústria. Devolução e transferência entre depósitos não são consumo.
Multiplique pelo custo unitário. Consumo vezes custo dá o valor consumido de cada item. Use o mesmo critério de custo para todos (o custo médio ou o da última compra), senão a comparação entorta.
Ordene do maior para o menor. O item que mais movimentou dinheiro fica no topo da lista, não importa quantas unidades saíram.
Calcule o acumulado. Divida o valor de cada item pelo total do período e, na linha de cada um, some a porcentagem dele à de todos os que estão acima. O último fecha em 100%.
Defina os cortes. Até o primeiro corte do acumulado, classe A; até o segundo, B; o resto é C. Veja a seguir como escolher.
Numa planilha, isso cabe em cinco colunas: item, consumo, custo, valor consumido e porcentagem acumulada.
Onde pôr os cortes entre A, B e C?
A divisão mais citada é 80/15/5: itens A somam cerca de 80% do valor consumido, B os 15% seguintes e C os últimos 5%. É uma convenção, não uma lei. Serve de ponto de partida, e cada empresa ajusta à sua realidade: há quem use 70/20/10, há quem trabalhe com quatro classes.
Para decidir, olhe para a lista, e não só para a porcentagem:
- Veja quantos itens caíram em cada classe. Se a classe A ficou grande demais para a equipe acompanhar de perto, aperte o corte; se deixou de fora itens que claramente importam, afrouxe.
- Procure o "joelho" da curva, o ponto em que o acumulado para de subir rápido. Ele costuma ser um corte mais natural do que um número redondo.
- Repita o mesmo critério nas revisões seguintes. Mudar o corte a cada vez impede comparar uma curva com a outra.
O que importa não é acertar a porcentagem, e sim que a classe A seja uma lista que as pessoas consigam, de fato, tratar de um jeito diferente.
O que muda no estoque depois da curva ABC?
A curva só vale pelo que muda na rotina. Quatro lugares mudam primeiro:
- Compra: item A é comprado com mais frequência e em lotes menores, com preço negociado, prazo acompanhado e fornecedor alternativo em vista. Item C pode ser comprado em lotes maiores e menos vezes, para o comprador não gastar tempo com o que vale pouco.
- Inventário rotativo: a curva define a frequência de contagem: itens A contados mais vezes, B a cada trimestre, C uma ou duas vezes por ano.
- Endereçamento: aqui entra uma segunda curva, a de quantas vezes cada item é separado, e não a de valor. O que mais sai fica nos endereços mais perto da expedição e na altura da mão; o que quase não sai vai para cima ou para o fundo. O que vale muito fica num local mais controlado.
- Estoque mínimo: cada classe pede um nível de proteção. Item A tem o mínimo calculado com cuidado e revisto com frequência, porque sobra de item A é muito dinheiro parado; item C pode ter uma folga maior.
E o item barato que para a produção?
A curva ABC mede dinheiro, não importância. Um anel de vedação de poucos reais pode estar na classe C e, se faltar, parar uma linha inteira. O mesmo vale para o item de fornecedor único e para o importado com prazo longo.
Por isso, vale cruzar a curva ABC com uma segunda marcação, de criticidade, que responde a outra pergunta: o que acontece se este item faltar? Um jeito simples é usar três níveis:
- Crítico: a falta para a produção ou a entrega, e não há substituto rápido.
- Importante: a falta atrapalha, mas dá para contornar por alguns dias.
- Comum: a falta tem substituto ou pode esperar a próxima compra.
Um item C crítico continua sendo comprado sem muita negociação, mas ganha um estoque de segurança protegido e entra na contagem com mais frequência do que os outros itens C.
De quanto em quanto tempo refazer a curva ABC?
O consumo muda: produto novo entra, linha antiga sai, cliente grande chega ou vai embora. Uma curva antiga pode mandar contar todo mês um item que ninguém usa mais.
Uma rotina comum é refazer a curva a cada semestre, sempre com os últimos doze meses, e olhar com atenção os itens que mudaram de classe. Item que subiu de C para A merece uma pergunta: é tendência ou foi uma venda pontual? Item que caiu de A para C pode estar virando estoque parado. Quem troca muito de produto ou tem sazonalidade forte pode precisar refazer a cada trimestre.
Erros comuns
- Fazer a curva por quantidade, não por valor
- Mil parafusos parecem mais importantes do que dez motores, mas o dinheiro está nos motores. A curva de estoque é consumo vezes custo.
- Classificar pelo saldo, não pelo consumo
- O saldo mostra o que sobrou, não o que gira. O item encalhado vai para a classe A e ganha a atenção que deveria ir para o que sai.
- Nunca atualizar
- A curva envelhece com o catálogo e passa a orientar compra e contagem pelo passado.
- Ignorar o item crítico de classe C
- Barato não quer dizer dispensável. Sem a marca de criticidade, a peça de poucos reais falta e para a fábrica.
- Tratar 80/15/5 como regra
- Os cortes são ponto de partida. A classe A certa é a que a equipe consegue acompanhar de perto, não a que bate a porcentagem.
- Fazer a curva e não mudar nada
- Se a compra, a contagem e o galpão continuam iguais, a curva virou relatório.
Lista de conferência da curva ABC
- Consumo dos últimos doze meses levantado para todos os itens ativos
- Devoluções e transferências entre depósitos fora da conta
- Mesmo critério de custo para todos os itens
- Itens ordenados pelo valor consumido, com a porcentagem acumulada
- Cortes definidos e anotados, para repetir na próxima revisão
- Itens críticos marcados, qualquer que seja a classe
- Calendário de contagem e regra de compra ajustados por classe
- Data da próxima revisão marcada
Perguntas frequentes
Dá para fazer a curva ABC numa planilha?
Dá, e é assim que muita empresa começa. Bastam o consumo e o custo de cada item no período; o trabalho maior é juntar um consumo confiável. Quando o histórico de saídas está no sistema, ele sai pronto.
A curva ABC de estoque é a mesma de clientes?
O método é o mesmo; a pergunta muda. A de estoque ordena os itens pelo valor consumido; a de clientes ordena quem compra pelo faturamento. Cada uma orienta uma decisão diferente: a primeira, a compra e a contagem; a segunda, a atenção do comercial.
Item novo, sem histórico, entra em qual classe?
Ele ainda não tem consumo para classificar. Coloque-o, provisoriamente, na classe de um item parecido e reclassifique-o na primeira revisão em que já tiver alguns meses de saída.