Fluxo de caixa: como montar e acompanhar mês a mês

Lucro não paga boleto: caixa paga. Veja como montar o fluxo de caixa pelo regime de caixa, separar o previsto do realizado e criar a rotina que mostra o aperto com semanas de antecedência.

Equipe Develop · · 6 min de leitura

Muita empresa que dá lucro fica sem dinheiro para pagar o fornecedor. Parece contradição, mas não é: o lucro mede o que foi vendido e gasto no período; o caixa mede quando o dinheiro de fato entrou e saiu. Uma venda de hoje com prazo de 60 dias aumenta o faturamento agora e o caixa só daqui a dois meses — enquanto a matéria-prima comprada para ela vence em 30.

O fluxo de caixa é a ferramenta que mostra essa diferença antes de ela virar problema. Não é preciso sistema caro para começar: uma planilha bem montada resolve. O que faz diferença é a disciplina de lançar e olhar todo mês, de preferência toda semana.

Qual a diferença entre fluxo de caixa e lucro?

O resultado da empresa segue o regime de competência: a receita entra no mês em que a venda foi feita e a despesa no mês a que ela se refere, não importa quando foram pagas. É o que o contador usa para apurar o lucro e os impostos.

O fluxo de caixa segue o regime de caixa: cada valor entra no dia em que o dinheiro entrou ou saiu da conta. Uma venda parcelada em três vezes aparece em três meses diferentes. O 13º salário, que pesa no resultado ao longo do ano, sai do caixa de uma vez, entre novembro e dezembro.

Os dois números são verdadeiros e respondem perguntas diferentes. O resultado responde "a empresa dá lucro?". O fluxo de caixa responde "vou ter dinheiro para pagar as contas do dia 10?". Quem toca a empresa precisa dos dois.

Como montar o fluxo de caixa do zero?

  1. Separe o dinheiro da empresa do seu. Conta da empresa só para a empresa. Retirada do sócio é lançada como retirada (pró-labore ou distribuição de lucro), com valor e data.

  2. Anote o saldo inicial. Some o saldo de todas as contas e do caixa físico no primeiro dia do mês. Esse é o ponto de partida.

  3. Crie as categorias. Entradas: vendas à vista, recebimento de clientes, outras entradas. Saídas: fornecedores, folha e encargos, impostos, aluguel e contas fixas, despesas de venda (frete, comissão), empréstimos e retiradas. Poucas categorias bem definidas valem mais do que cinquenta confusas.

  4. Lance tudo o que já tem data. Boletos a pagar, parcelas a receber, folha, impostos com vencimento conhecido — cada um na data prevista. Isso é o previsto.

  5. Lance o realizado. Conforme o dinheiro entra e sai, registre o valor real na data real. Se o cliente pagou com atraso, o lançamento vai para o dia em que o dinheiro chegou.

  6. Calcule o saldo dia a dia. Saldo do dia é o saldo do dia anterior, mais as entradas, menos as saídas. Olhe principalmente para os dias em que o saldo previsto fica negativo.

  7. Confira com o extrato. No fim de cada semana, o saldo do fluxo tem de bater com o saldo das contas. Se não bate, algum lançamento faltou ou está errado: ache antes de seguir.

Por que olhar o previsto e o realizado lado a lado?

O previsto mostra o que deveria acontecer; o realizado, o que aconteceu. A diferença entre os dois é onde mora a informação útil.

Se os recebimentos realizados ficam sempre abaixo do previsto, há atraso ou inadimplência, e vale olhar quem são esses clientes e rever o crédito. Se as saídas realizadas ficam acima, há despesa que não estava no radar. Com alguns meses de histórico, você passa a prever melhor, porque sabe quanto do "a receber" costuma de fato entrar no prazo.

Como acompanhar o fluxo de caixa mês a mês?

Montar é a parte fácil; o que dá resultado é a rotina. Uma que funciona para a maioria das empresas:

  • Toda semana: lançar o realizado, conferir com o extrato e olhar as próximas quatro semanas. Se algum dia fica negativo, a decisão (antecipar um recebível, negociar um prazo, segurar uma compra) é tomada agora, não na véspera.
  • Todo mês: fechar o mês, comparar previsto e realizado por categoria e anotar o que explica as maiores diferenças.
  • Todo trimestre: olhar a tendência dos doze meses: os meses fracos do ano, o peso de cada categoria e se o prazo médio de recebimento está crescendo.

Uma visão com os doze meses lado a lado — entradas, saídas, resultado do mês e saldo acumulado — mostra de relance a sazonalidade da empresa: em quais meses o caixa aperta todo ano e quanto é preciso guardar antes deles.

Que decisões o fluxo de caixa ajuda a tomar?

  • Quanto prazo dar ao cliente sem descobrir o caixa.
  • Quando vale antecipar recebíveis, e quando isso é só pagar juros por falta de planejamento.
  • Se dá para fazer aquela compra grande à vista para ganhar desconto.
  • Quanto o sócio pode retirar sem apertar a operação.
  • Qual reserva mínima a empresa precisa manter para atravessar os meses fracos.

Nenhuma dessas perguntas tem resposta certa sem o fluxo. Com ele, cada uma vira uma conta simples: o saldo previsto na data, com e sem a decisão.

Erros comuns

Misturar a conta pessoal com a da empresa
Nenhum número fica legível quando a despesa de casa sai da mesma conta que paga o fornecedor.
Lançar pela data da venda, não do dinheiro
Isso é competência. No fluxo, a venda a prazo só entra quando o cliente paga.
Esquecer as despesas que não são mensais
13º, férias, impostos trimestrais, anuidades e seguros. Distribua a previsão no ano para não ser surpreendido.
Tratar todo "a receber" como certo
Parte dos clientes atrasa. Use o histórico para prever quanto entra de fato no prazo.
Não conferir com o extrato
Fluxo que não bate com o banco não serve para decidir.
Olhar só o mês que passou
O valor do fluxo está nas próximas semanas. Olhar para trás explica; olhar para a frente evita o aperto.

Lista de conferência do fechamento do mês

  • Todas as entradas e saídas do mês lançadas na data real
  • Saldo final do fluxo igual ao saldo das contas e do caixa
  • Retiradas dos sócios lançadas em separado
  • Previsto e realizado comparados por categoria
  • Maiores diferenças explicadas e anotadas
  • Próximos 90 dias atualizados com os novos vencimentos e parcelas
  • Despesas anuais e trimestrais previstas nos meses certos

Perguntas frequentes

Preciso de sistema para ter fluxo de caixa?

Para começar, não. Uma planilha com os lançamentos por categoria e um resumo mensal resolve. O sistema passa a compensar quando o volume cresce e redigitar vendas, notas e boletos na planilha começa a tomar horas e a gerar erro.

Com que frequência devo atualizar?

O realizado, pelo menos uma vez por semana. Empresa com muito movimento diário ou com o caixa apertado ganha com a atualização diária. O importante é que o saldo do fluxo sempre bata com o do banco.

Fluxo de caixa e DRE são a mesma coisa?

Não. A DRE (demonstração do resultado do exercício) segue a competência e mostra se a empresa dá lucro. O fluxo de caixa segue o regime de caixa e mostra se vai haver dinheiro no dia de pagar. Um completa o outro.

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