Em muita fábrica, o controle de calibração é uma planilha que alguém atualiza quando lembra. Funciona até a auditoria pedir o certificado do paquímetro da bancada e ninguém saber quando ele foi calibrado, ou se chegou a ser.
O problema não é só a constatação do auditor. Instrumento fora do especificado aprova peça que não deveria passar, e tudo o que ele mediu desde a última calibração fica sob suspeita. Este guia mostra como evitar as duas coisas, do cadastro ao instrumento reprovado.
O que é calibração, e o que ela não é?
Calibrar é comparar o que o instrumento indica com um padrão de valor conhecido. O certificado informa, em cada ponto medido, o erro do instrumento e a incerteza da medição, a faixa de dúvida que acompanha qualquer resultado.
Três palavras costumam ser confundidas:
- Calibração: mede o erro. Não mexe no instrumento e, sozinha, não diz se ele está bom ou ruim.
- Ajuste: mexe no instrumento para reduzir o erro. O ideal é o certificado trazer os valores de antes e de depois: o de antes diz se as medições passadas estavam boas.
- Verificação: confere se o erro está dentro de um limite definido. É aqui que o instrumento é aprovado ou reprovado.
Quem decide se o instrumento continua em uso é a empresa, comparando o resultado com um critério que ela mesma definiu.
Como montar o cadastro de instrumentos?
Levante tudo o que mede. Paquímetros, micrômetros, relógios comparadores, calibradores, manômetros, balanças. Inclua os que estão na manutenção e os instrumentos pessoais dos operadores.
Separe o que precisa de calibração. Precisa o que aprova produto ou controla processo. O que só indica, como o manômetro que mostra se há pressão na linha, fica identificado como uso sem calibração.
Dê um código único a cada um. Gravado no próprio instrumento, para não sair com o uso. É ele que liga o instrumento ao certificado e a cada medição feita com ele.
Registre os dados técnicos. Tipo, fabricante, modelo, número de série, faixa de medição e resolução.
Defina onde fica e quem responde por ele. Setor, bancada ou pessoa. Instrumento sem dono é o que some na semana da calibração.
Mostre a situação no próprio instrumento. Uma etiqueta com a data da última calibração e a da próxima diz, na bancada, se pode usar.
Como definir a periodicidade de calibração?
Não existe prazo certo para todos os instrumentos. O "um ano para tudo" é fácil, mas calibra demais o que quase não se usa e de menos o que trabalha o dia inteiro. O intervalo deve considerar:
- A recomendação do fabricante.
- A frequência e a intensidade de uso.
- O ambiente: poeira, vibração, temperatura, óleo.
- A tolerância do que é medido: quanto mais apertada, menos folga.
- O histórico das calibrações anteriores.
- O custo de uma medição errada.
Na prática, comece com um intervalo conservador e ajuste com o histórico: se o instrumento volta sempre com erro pequeno, longe do limite, o intervalo pode crescer aos poucos; se volta perto do limite, ou reprovado, diminui. O guia internacional ILAC-G24/OIML D 10 descreve métodos para essa revisão.
O que conferir no certificado de calibração?
Um certificado só tem valor se o resultado for rastreável: ligado aos padrões nacionais ou internacionais por uma cadeia contínua e documentada de calibrações, cada uma com a sua incerteza. É isso que garante que o milímetro da sua bancada é o mesmo do seu cliente.
No Brasil, o caminho mais direto é um laboratório da RBC, a Rede Brasileira de Calibração: laboratórios acreditados pela Cgcre, do Inmetro, que avalia a competência técnica deles pela norma ABNT NBR ISO/IEC 17025. A acreditação vale para um escopo, isto é, grandezas e faixas específicas: antes de contratar, confira se o seu serviço está dentro dele.
Ao receber o certificado, confira:
- Se o código e o número de série batem com os do instrumento.
- Se os pontos calibrados cobrem a faixa em que você usa o instrumento.
- Se aparecem o erro e a incerteza em cada ponto.
- Se há a declaração de rastreabilidade e, no laboratório acreditado, o símbolo da acreditação.
- Se houve ajuste e quais eram os valores de antes.
Como decidir se o instrumento está aprovado?
O critério de aceitação é o erro máximo que a empresa admite para aquele instrumento. Ele deve nascer da tolerância do que o instrumento mede, e não do catálogo: o mesmo paquímetro pode servir para uma cota de ±0,5 mm e ser inadequado para outra de ±0,02 mm.
Uma forma prudente de comparar é somar o erro encontrado e a incerteza do certificado, e aprovar só se a soma ficar dentro do critério. Um exemplo, com números ilustrativos:
- Tolerância da peça: furo de 20,00 mm, com ±0,10 mm.
- Critério definido para o paquímetro: erro mais incerteza de até 0,03 mm.
- Resultado do certificado: erro de 0,02 mm e incerteza de 0,01 mm. A soma dá 0,03 mm: aprovado, mas sem folga, o que sugere encurtar o intervalo.
- Se o erro fosse de 0,03 mm: a soma passaria a 0,04 mm: reprovado para esse uso.
Que fração da tolerância da peça o instrumento pode consumir é decisão sua, ou do seu cliente, e deve estar escrita no procedimento.
O que fazer com um instrumento reprovado?
Reprovar o instrumento é a parte fácil. A pergunta difícil: o que foi medido com ele desde a última calibração aprovada continua confiável? Normas de gestão da qualidade, como a ISO 9001, pedem essa avaliação.
Tire de uso na hora. Identifique como reprovado e guarde separado, para ninguém pegar por engano.
Levante o que ele mediu. Quais inspeções, lotes e ordens usaram o instrumento desde a última calibração aprovada. Só dá para responder se cada inspeção registra o código do instrumento.
Avalie o impacto. Compare o erro encontrado com a folga das medições feitas. Peça aprovada longe do limite da tolerância provavelmente continua boa; peça aprovada perto do limite pode estar fora da medida.
Contenha o que estiver em risco. Reinspecione o estoque suspeito e, se houver peças entregues, avalie com o cliente. Daqui em diante, é uma não conformidade: registro, contenção, causa e ação.
Decida o destino do instrumento. Ajustar e calibrar de novo, consertar, liberar para uso menos exigente com a restrição na etiqueta, ou descartar.
Registre tudo. O resultado da avaliação, as peças verificadas e a decisão. É isso que o auditor vai pedir.
Como controlar os vencimentos sem susto na auditoria?
Vencimento se controla com rotina, não com corrida no mês da auditoria:
- Agenda com antecedência: uma lista ordenada pela próxima data, revista toda semana, com o que vence nos próximos 30 ou 60 dias.
- Reserva para o crítico: o instrumento que não pode faltar precisa de um substituto calibrado enquanto o outro está fora.
- Vencido não mede: passou da data, sai de uso até voltar calibrado, sem a exceção do "só hoje".
- Um número para acompanhar: quantos instrumentos estão vencidos e ainda em uso. A meta é zero.
Erros comuns
- Arquivar o certificado sem ler
- O laboratório mede; quem aprova é você.
- Um ano para tudo
- Sem critério, o intervalo erra para os dois lados.
- Esquecer o instrumento pessoal
- O paquímetro do operador mede peça como qualquer outro. Ou entra no controle, ou não entra na fábrica.
- Instrumento sem resolução para a tolerância
- Nenhuma calibração conserta a escolha errada do instrumento.
- Reprovar sem olhar para trás
- Trocar o instrumento e seguir deixa sem resposta tudo o que ele aprovou antes.
- Inspeção sem o código do instrumento
- Sem esse registro, a análise de impacto vira suposição.
Lista de conferência ao receber um instrumento calibrado
- Código e número de série do certificado iguais aos do instrumento
- Erro e incerteza informados nos pontos da faixa de uso
- Rastreabilidade declarada e serviço dentro do escopo do laboratório
- Erro mais incerteza comparados com o critério de aceitação
- Decisão de aprovado ou reprovado registrada, com quem analisou
- Próxima data calculada e etiqueta atualizada
- Se reprovado: instrumento separado e análise de impacto aberta
Perguntas frequentes
A calibração precisa ser feita em laboratório da RBC?
O que se exige é rastreabilidade, e o laboratório acreditado é o jeito mais simples de demonstrá-la. Também dá para calibrar na própria empresa, com padrões calibrados em laboratório acreditado, procedimento escrito e pessoas treinadas.
Calibração é obrigatória por lei?
Para a maior parte dos instrumentos de uma fábrica, a exigência vem da norma de qualidade que a empresa segue, dos clientes ou do próprio procedimento. Instrumentos usados em relações de consumo, como balanças de venda por peso, seguem regras próprias de metrologia legal do Inmetro, que valem à parte.
Posso aumentar o intervalo entre calibrações?
Pode, se o histórico mostrar erro estável e longe do limite, ampliando aos poucos e registrando o motivo. Se o instrumento voltar perto do limite, o intervalo encurta de novo.